Um fato
Ações perduram mais do que suas respectivas motivações, eis mais um fato. Tantas boas intenções pelo inferno, e tantas ações desacompanhadas a nos assombrar a memória. “Contra fatos não há argumentos”, é o que dizem. Somos adoradores dos fatos: os fatos do dia, os fatos da semana, os fatos do mês, os fatos do ano… Adoramos os fatos em sua superficialidade: a notas curta do jornal, a fofoca desprezando motivações, o resumo do livro… Na universidade aprendo fatos. Me perguntam sobre os fatos de que não sei, pouco posso dizer daqueles de que sei e tenho algo a dizer. Somos adoradores dos fatos, e acima de tudo da superficialidade. Condenamos boas intenções ao inferno. Desprezamos motivações. Só nos restam ações, reações e mágoas sem motivo…
D.T.
Tecendo…
… e foi assim que, dia desses, procurando o nó, a extremidade do fio com o qual teceria meu discurso, dei-me conta, enfim, do emaranhado em que me perdera. Recostei-me na cadeira, tinha a visão turva, olhos e ouvidos ressentidos pela prolixidade das imagens e sons, das ondas e pixeis, dos zeros e uns vindos de toda parte. Já não sabia por qual lado puxar, por qual fio começar, que nó desatar. Asfixiavam-me os incontáveis nós que surgiam antes que pudesse lidar com o primeiro, e quando tentei me afastar, deixando de lado toda confusão, eis que os fios enroscaram-se aos meus pés… E na minha aflição, num movimento brusco, puxei a tomada… Imediatamente, a tela escureceu diante dos meus olhos. Na penumbra da sala silenciosa, fixei o olhar num ponto distante, repousei os punhos sobre o teclado e, com os pés livres, respirei aliviado…
D.T.
Incontável…
Um homem conta tantas vezes as suas histórias, que se torna as próprias histórias. E as histórias sobrevivem-lhe. E é assim que ele se torna imortal. (do filme Big Fish, Tim Burton)
(…)
O rádio-relógio soa pontualmente às seis e meia, fora de sintonia. Não escuto a habitual voz do locutor. Em seu lugar, um chiado estridente. Não recordo a freqüência, desligo o aparelho. O locutor não notará minha ausência nesta manhã, jamais participei de uma pesquisa de audiência. Levanto e abro a janela. Aceno para o zelador, que varre o pátio. Não lembro o seu nome e, provavelmente, ele não sabe o meu também: sou só o cara do cento e três.
Meu apartamento fica no décimo andar, em meio a tantos outros décimos andares desta cidade, por entre os quais mal posso ver o dia começar: o sol não nasce mais pra todos, me sobra esta luz cinza…
Hoje é dia 23. Passo a vida contando dias, controlando dívidas, pagando contas. Dos meus dias, sempre iguais, pouco tenho a dizer. Já não sei narrar histórias, já não sei imaginar. Sigo numerando páginas de um livro em branco. Não há nada pra contar…
D.T

Diego Teixeira.